
NÃO É NECESSÁRIO TEMER PELO FUTURO
Sofia Porto Bauchwitz | Pedro Lucas Bezerra
Entre os dias 11 e 16 de novembro de 2024, nos reunimos em Areia Branca, Rio Grande do Norte, para pensar maneiras de estar no mundo que puedessem provar que não é necessário temer pelo futuro.
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Costa Branca | Areia Branca
4° 57′ 21′′ S, 37° 08′ 13′′ O a 2 332 km de Brasília

Máquinas de triturar
ruído de motores que substituem o trabalho humano. contei oito caminhões e um barco no lugar de uma cidade inteira.
Tilintar
do navio que transporta o sal, das peças soltas do caminhão e da sirene que alerta que algo está em movimento.
VENTO
um gigante que move o vento, que move ar debaixo das asas das aves. um vento que move os braços dos gigantes em gestos tediosos e barulhentos. um sopro constante no ouvido.
Chamados
o som do animal se repete em forma de bode, cabra,
galo, galinha de angola, gavião, bem-te-vi, concriz, asno.atendemos aos cantos com o fervor de um Alexamenos.
ESPOSA DE LOT
não olhes para trás de ti nem te detenhas em nenhum lugar. ora, a mulher de Lot olhou para trás e converteu-se numa estátua de sal. como resistir às catástrofes?
CANSAÇO
quem sente fadiga, canseira,
estafa, exaustão, prostração,
esgotamento, quebreira,
estafamento, descaimento,
lassidão, fraqueza, diz “tô fraco”. só o galo sabe dizer o nome de um agora.
SONOFAGIAS
o extrativismo agarra tudo, é um dispositivo de captura e silenciamento: pega os sons da terra e cospe energia.
PRESSÁGIOS
só marca o chão quem caminha a terra. só sabe do amanhã quem ouve as vozes sutis que atravessam o tempo.
“o homem deve trazer ao tubarão
os modos do cão: o tubarão, por
sua vez, entrega ao homem
a lembrança dos peixes.”
P.L.B.
“Os caranguejos não conhecem
liturgias do sal: eles buscam
conduzir um rito sem som.”
P.L.B.
“o tubarão pergunta ao mar:
onde cantam as sereias e os demônios?”
P.L.B.
![[2] Fomapan 100.jpg](https://static.wixstatic.com/media/11dcb2_81062423c2eb4c3f9fd46128d5b3ae01~mv2.jpg/v1/fill/w_135,h_90,al_c,q_80,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/11dcb2_81062423c2eb4c3f9fd46128d5b3ae01~mv2.jpg)
MISSAL I
Liturgia do sal
Um dia, o sal se vingará: em forma de tentáculos, suas grandes fontes virarão bordas onde o carago será fonte de braços e pernas e o sal, outrora informe, outrora incorpóreo, começará a virar um novo ser. O sal passará a ter forma e consistência de animal antigo, de forma que escapa aos bestiários e se introduz no caminho dos aflitos titãs e gigantes que povoam as epopeias.
O sal, incorpóreo, passa a tomar todos os confins de seu habitat: o sal tomará as águas, seja a doce ou a salgada, o sal irá se vingar dos rios e mares que o fundam, e se vingará de Lagos, na Nigéria, onde o sal também é comercializado e vira moeda de troca. O sal transformará outros rios e corpos de água em grandes estátuas de sal.
"O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar."
Padre Antônio Vieira,
Sermaõ de Santo Antônio aos Peixes
Os montes de sal que povoam o mundo se unirão, pouco a pouco, formandouma grande pirâmide. O sal, outrossim, toma as ruas: a água do mundo eos braços de mar, e os aerogeradores, e os cilindros mágicos da tecnologia,e os ossos dos peixes, e os incunábulos, e os solstícios, e o sol negro que governaa América, e o sal toma o lodo e a lama, e o sal passa a dar corda ao dia, e o salcomeça a desposar a lua, e o sal passa a secar o próprio sal que sobra no mundoe o sal se sente só, solitário no poente que não alcança jamais. O sal governao mundo, em forma monstruosa de solidão.

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Liturgia da Estátua
Correr em linha reta: rever a imagem para perceber que não há reta alguma. Perceber os desvios, pular a poça de sal em ziguezague até sumir do mapa. Se fazer desaparecer de vista. Acompanhar a topografia.
Sumir-se. Desaparecer no horizonte por vontade própria.
Horizonte, linha eterna. Não olhar para trás: resistir à tentação
de ver o que ficou. Resistir à tentação de acompanhar o desaparecimento.
Não virar estátua.
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Liturgia da Salmoura
Um peixe que se chama Salema. Sarpa Salpa. Que vive na salmoura de uma Salina. Salmoura é uma solução aquosa salgada que pode conservar comida, alimento, corpos. Um peixe, então, que mora no sal, que vive em conserva em uma salmoura saindo da ferida, depois de dias no hospital, vazando pela virilha. Um peixe que mora no sal, mas que precisa de oxigênio.
Rhodophyta são algas vermelhas com mais de 7 mil espécies, algas marinhas tropicais pluricelulares. A alga vermelha é a que consegue ir mais fundo no oceano e, por isso, a Rhodophyta sobrevive melhor que ninguém no abismo da Salina.
Diversos produtos contém Rhodophytas: anticoagulantes, maionese industrial, supositórios, filme fotográfico.
Bactérias que colorem o lar das Salemas de vermelho-azul-furta-
cor são parecidas com as bactérias que escorrem salmoura da ferida. Cianobactérias que convivem com os peixes que seguem as bombas que trazem água nova para respirar melhor. A bomba, esse monstro de ferro que cospe e suga água, terra, sal, asfalto, carago: cuspindo bolhas de ar. Carago, também, é peixe de esqueleto cartilaginoso. Grande, mas não tão grande quanto as bombas com a água fresca para fazer sal e trazer ar para os peixes que respiram e morrem pela boca.
Existe um plural coletivo cardume nas salinas?
12 Trabalhadores, contei, oito caminhões, um barco, oito montanhas de sal, coreografias de acasalamento.



Liturgia do Tubarão
I. Dentro do tubarão
Um pescador chega a Areia Branca com o barco cheio de peixes. Dentre esses peixes, um tubarão; quando aberto o tubarão, na areia da praia, havia dentro dele metade de um homem, já em processo de decomposição, sendo digerido pelo animal. Homem-peixe ou Peixe-homem. Morto dentro de morto.
Fizeram uma cruz na praia e enterraram o homem e o tubarão. Unidos para sempre, foram enterrados em fossa comum. Ambos sem nome. O homem foi enterrado numa lata de manteiga, para evitar que os líquidos da decomposição corroessem rapidamente a madeira, e sobre a lata, envolto duas vezes, um
caixão. O tubarão também foi enterrado, inadequado pra consumo ou qualquer tipo de uso.
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II. Coroado de Caranguejos
O homem mergulha no alto mar, sem nenhuma bússola.
Conforme o abismo vai se abrindo, o homem encontra seu tubarão. O tubarão, ao vê-lo, disse: Tu demorastes. Havia um círculo de sargaços produzindo um halo com a luz fraca da lua se esgueirando entre os fios de água. O tubarão o engole: acima deles, apenas a lua. Não há testemunhas. Os caranguejos que o coroam saem de sua cabeça e, dentro do tubarão, estendem um tapete. Dentro do tubarão, acendem candelabros e preparam o lugar para que o homem seja conduzido ao centro.
Os caranguejos não conhecem liturgias do sal: eles buscam conduzir um rito sem som.
Dentro do tubarão não há muito espaço: é um tubarão de pouco tamanho, um tubarão que sai do centro do Pacífico e se esgueira mundo adentro.
O tubarão precisa ser ágil e o homem que o preencherá deve ter olhos de lince, modos de pássaro, pensamento de cotovia. O homem deve trazer ao tubarão os modos do cão: o tubarão, por sua vez, entrega ao homem a lembrança dos peixes.
O homem dentro do tubarão busca um lugar – para ele, é possível caber num espaço que interage com as brânquias do tubarão, onde ele pode locomover para o centro do pulmão do peixe o seu próprio. Com isso, há uma sincronia. Os caranguejos, como soldados, se certificam dos gestos dos corpos. O tubarão, sem nome e sem irmãos, irá fazer uma viagem.
O homem já teve nome, sobrenome, número de CPF, número de registro geral, número de carteira de motorista, número de espera em consultórios e bancos, número em sala de aula, já teve um apelido, já foi chamado de meu amor e já foi chamado de infeliz, já levara cuspida na cara e nomes terríveis e esquecíveis,
já fora cruel e também sensível, e uma vez, por acidente, matou uma ave.
O tubarão nunca matou ninguém: ele apenas absorve.
O tubarão irá iniciar sua viagem. Para isso é preciso que todas as coisas estejam encaixas e que todos os órgãos estejam no seu lugar. Quando algo se organiza, a palavra maquinação acontece.
Um refrão se repete: órgão órgão órgão órgão órgão órgão
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Os ventos, lá em cima, se mexem e se anulam.
O tubarão, preenchido do homem, de maneira lenta se locomove no mar adentro: saindo da costa italiana, onde conhece as gaivotas que um dia comeram os olhos dos peixes que comeram o cadáver de Ulisses, passam através da costa de Portugal, onde conhece, com o homem dentro de si, pouco a pouco povoando seus pensamentos e seus reflexos, um grande peixe espada que outrora foi levado à África com Bartolomeu Dias, de onde retornou fugido junto com os negros, e o tubarão enfim se espalha até o outro ponto do mapa, o outro mar, com correntes de águas quentes que, antes de o ancorarem ao destino final, exibem como nos filmes antigos a série de peixes que conheceram os antepassados dos primeiros homens, ainda com arpões de pedra, ainda conhecendo as redes de pesca, ainda tentando comunicar-se com os seres monstruosos.
O tubarão, então, se entrega a uma rede: ele e o homem chegam a uma baía.
O tubarão pergunta ao mar: Onde cantam as sereias e os demônios?
Os peixes se calam e as correntes o levam ao outro lado, sempre o outro lado, aquele lugar onde a imagem está rota, as pontes pênseis se avistam, os fogos acesos no horizonte e as ondas começando a se mover de lado em relação à grande costa, os tropos de corpos imensos voltando aos barcos, e logo uma rede é lançada sem canto algum – o tubarão é parte da rede.
Todas as formas de dança são, dentro do mar, premiadas: os cetáceos e os seres ignorados pela ciência sabem cantar e entoar epopeias. Ninguém jamais ouviu: esse silêncio é parte de seu canto. Em torno do tubarão, são cantadas incelenças e loas de despedida – algo está indo embora, e a própria memória de que o tubarão está indo embora junto com o homem que também é tubarão, agora, animam este canto de silêncio e despedida.
O tubarão chega a Areia Branca com o homem dentro dele. O homem e o tubarão estão em silêncio. Quando os pescadores na terra abrem o tubarão, algo se revela.



“peixes-bois ou sereias são seres que gostam de tocar fundo. com lábios carnudos e caudas que movem navios, são grandes como montanhas: ilhas moventes e mansas.”
S.P.B.
“gigantes são seres de três braços que gostam de dançar. quando abrem a boca miúda para tomar ar, vemos uma garganta estreita que toca, vertical, no céu. na sombra que seu corpo projeta na terra, pouca coisa cresce: passarinho e abelha fogem do rumor que seu estômago espalha com o vento.”
S.P.B.
“o rei coroado com siris
perde seus dentes no jogo e grita profecias entre goles e cuspes.”
S.P.B.










![[0] Fomapan 100.jpg](https://static.wixstatic.com/media/11dcb2_ed048f0d16394fe4a5804b184e540dc7~mv2.jpg/v1/fill/w_135,h_90,al_c,q_80,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/11dcb2_ed048f0d16394fe4a5804b184e540dc7~mv2.jpg)





Sofia Porto Bauchwitz
(Rio de Janeiro, 1988)
Potiguar entre João Pessoa e Natal
Artista visual e pesquisadora, atualmente é professora do Departamento de Artes Visuais da UFPB. É mestre em Pesquisa em Arte e Criação pela Universidad Complutense de Madrid (2013) e Doutora em Belas Artes pela mesma instituição (2017) com a tese “El Artista Errante y el Discurso como Cartografía en un contexto hispano-brasileño”. Seu trabalho passa pelo texto escrito e falado, pela construção de acontecimentos efêmeros e pela proposição de exercícios fabulatórios com os quais busca vivenciar modos de co-presença. Foi exposta em instituições como Arnheim Museum (Holanda), MAK-Vienna (Los Angeles, EUA), Sala de Arte Joven de Madrid (Espanha), Fundação Eugênio de Almeida (Évora, Portugal), Zeicheninstitut (Kassel, Alemania), Museo Murillo la Greca (Recife, Brasil), entre outros. Além disso, Sofia escreve textos críticos, estando presente, por exemplo, no catálogo da exposição Generaciones 2019 (Casa Encendida, Espanha) e À Nordeste (Sesc 24 de Maio, São Paulo).
Pedro Lucas
Pedro Lucas Bezerra nasceu em Natal/RN em 1993. É mestre e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É músico e escreve sobre música na revista O Inimigo (oinimigo.org). Publicou Trem Fantasma (Quelônio, 2021) e Devoção (Macondo, 2024), além de colaborações em jornais e revistas.
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